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Entrevista com o cachoeirense Sérgio Garschagen sobre o jornalismo brasileiro


17/10/2008

 


Por Rondinelli Suave

 

Em “Mensagem a Rubem Braga”, o poeta Vinicius de Moraes versava para o amigo Rubem: “Digam-lha que Cachoeiro continuava no mapa”. Os tempos e o personagem são outros, mas o jornalista cachoeirense Sérgio Garschagen, 60 anos, insiste em encontrar Cachoeiro por onde passa, nem que seja para lembrar daqui enquanto vagueia pelo Oriente Médio.

 

Formado em Comunicação Social em Brasília, Sérgio trabalhou no “Jornal de Brasília”, atuou em “O Globo” por 8 anos e foi editor de Indústria da “Gazeta Mercantil”, onde também chefiou, por dez anos, as sucursais do Paraná e Santa Catarina e montou a sucursal da GZM no Espírito Santo. Foi assessor de imprensa do Banco Central (Pedro Malan na Presidência) e duas vezes do Ministério do Planejamento, a primeira com a gaúcha Yeda Crusius e agora com o paranaense Paulo Bernardo.

 

O jornalista fala, nesta entrevista, da nova safra de talentos da cidade, da forma como o Espírito Santo é visto em Brasília e de sua experiência no meio do terrorismo do Oriente Médio. Sérgio também disseca jornalismo brasileiro e detecta os desafios do meio impresso em plena era digital.

 

Folha – Como muitos cachoeirenses, você estudou no velho Bernardino Monteiro, hoje sede da prefeitura.  Saudades da escola?

 

Sérgio - Nasci em plena Praça Jerônimo Monteiro, 101, em casa e no já longínquo ano de 1948, época em que o rio ainda tinha peixes e até lontras que, do nosso quintal, via brincar nas águas limpas do Itapemirim. Aos sete anos remava para cima e para baixo e conhecia todos os pesqueiros de carás e moréias que levava para o meu pai e para o Dr. João Madureira pescarem os seus robalos.  Estudei no velho Bernardino Monteiro, onde democraticamente conviviam filhos de ricos e pobres; fui aluno da temida dona Lulu, que deixava a meninada de castigo após as aulas. Esses castigos me ajudaram a entrar no Liceu. Adorava ler e odiava estudar didaticamente.  Formado em Letras Português-Inglês na FaFi (1974) e em Comunicação Social em Brasília (1980), cheguei também ao quarto ano de Direito, em Curitiba, mas não conclui o curso, chocado pelo fosso entre a lindíssima teoria do Direito e a sua  prática cotidiana. Este ano, conclui o mestrado em Ciência Política, em Brasília, com uma dissertação sobre as mudanças na imprensa brasileira e a política de exclusão dos repórteres veteranos da profissão.

 

Folha - Você iniciou sua vida profissional em Cachoeiro, nos jornais Correio do Sul e O Momento. O jornalismo mudou muito de lá até hoje?

 

Sérgio - Muito.A mudança teve início mesmo com o advento da TV, que tirou do jornal o monopólio da informação. Nos anos 60 circulavam uns 30 jornais no Rio de Janeiro, que seguiam a linha editorial dos seus donos. Sobreviveram apenas O Globo e um arremedo em tablóide do velho Jornal do Brasil. Em São Paulo, idem. Apenas a Folha de S. Paulo e o Estadão sobrevivem na grande imprensa. Nas grandes capitais cresce a leitura de jornais populares, baratos e de leitura tipo drops. A informática, que permitiu a existência do jornalismo em tempo real, faz com que os grandes jornais circulem totalmente defasados e com perda de leitores e faturamento. O pior é que eles nada fazem para mudar essa realidade e continuam a dar manchetes requentadas e antigas nesses tempos de comunicação online, em tempo real.. Deveriam investir mais em colunistas e reportagens e deixarem de disputar espaço com os blogs e sites, bem mais rápidos. Ricardo Noblat acha que os donos dos jornais, com essa política, parecem querer matar os jornais definitivamente. Luiz Orlando Carneiro, há 50 anos no JB, lamenta que os editores de jornais de expressão nacional façam as suas pautas com base nas noticias do UOL e outros portais, editados por jovens recém formados. As novas gerações não lêem mais jornais e se informam pela Internet e não vai aqui qualquer critica, que há muito aprendi a não brigar com a realidade e nem com fatos. O comunicólogo francês Pierre Levy diz que a mudança causada pela informática nos meios de comunicação é igual ou maior que a revolução desencadeada pela prensa inventada por Gutemberg, que ajudou a enterrar os senhores feudais e democratizou a informação. Levy destaca que hoje, pela primeira vez na história da humanidade, um artigo, peça, manifesto político ou livro podem ser publicados em qualquer lugar do mundo sem passar antes por um editor ou qualquer censura. Isso é revolucionário mesmo.

 

Folha - Essa mudança atinge o cotidiano dos jornalistas e dos cidadãos comuns?

 

Sérgio - Sim. Os americanos definem a informática como uma “disruptive technology” ou seja, uma tecnologia desagregadora de valores tradicionais. O motor a explosão foi uma tecnologia desagregadora. Acabou com uma cultura centenária que envolvia cocheiros, cavalos, ferreiros e vida pacata. O cocheiro teve de aprender mecânica. O jornalismo nunca mais será o mesmo com a informática. Autores há que apostam no fim do jornalismo como profissão com a explosão dos blogs e dos chamados cidadãos-jornalistas que passarão a pautar a imprensa informatizada. Exemplo típico foi o affair Bill Clinton X Mônica Levinsky. A primeira notícia sobre o caso foi de um blogueiro, que pautou a imprensa americana. Os demais profissionais liberais também devem ficar atentos com o tsunami profissional. Os contadores americanos perderam clientes para os seus colegas indianos, que preenchem pelo menos metade das declarações de imposto de renda da classe média americana a um custo dez vezes mais baixo. A informática permite que um estudante cachoeirense receba aulas particulares de matemática ou inglês de um professor indiano, fato também já comum nos EUA. Essa cultura fatalmente vai chegar aqui.

 

Folha - Você foi morar nos EUA e ralar em Brasília. Sua história mostra que é comum ao sul-capixaba deixar sua terra rumo a oportunidades que não encontra aqui.

 

Sérgio - É preciso deixar claro às novas gerações que antes de ser uma cidade exportadora de mão-de-obra qualificada e também de artistas talentosos, Cachoeiro importou talentos. Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico, foi editor de um jornal na cidade; o pensador católico Gustavo Corção também morou em Cachoeiro e instalou os trilhos dos dois bondes que circulavam na cidade (que o povo maliciosamente denominava de “Upa” e “Cupa”). Cito ainda o casal de educadores catarinenses Alfredo e Aurora Herkenhoff que, à frente do seu tempo, implantou uma escola formadora de mão-de-obra especializada na cidade que crescia. O engenheiro carioca Florentino Ávidos implantou uma usina hidrelétrica na Ilha da Luz e os irmãos judeus Arthur e Lothjar Fröhlich chegaram a implantar uma fábrica de rádio na cidade, em uma época em que a eletrônica era tecnologia de ponta.  Após os anos 50/60, Cachoeiro estagnou e empobreceu culturalmente e a fama de cidade do “já teve” tornou-se real. Nos anos 50 os DC-3 da NAB (Navegação Aérea Brasileira) ligavam Cachoeiro ao Rio de Janeiro. A Rádio Cachoeiro e seus programas de auditório ao vivo ensinaram muitos artistas da cidade a desenvolverem técnicas básicas de domínio e impostação de voz, antes de seguirem para o Rio. Os jornais “Arauto” e o “Correio do Sul” formaram talentos como Rubem e Newton Braga e também serviu como trampolim para diversos jornalistas cachoeirenses que hoje trabalham no Rio, São Paulo, Vitória e Brasília. “O Momento”, da mesma forma, apesar de órgão oficial da Prefeitura, foi um jornal que, sob a batuta do jornalista Wilson Márcio Depes, inovou em plena ditadura. Era oposição. Lembro da época em que Wilson estudava os manuais de redações do JB, da Folha de São Paulo e do Estadão, para modernizar a imprensa cachoeirense. “O Momento” introduziu as perguntas básicas do lead – que, quem, quando, onde, por que e como - em Cachoeiro.

 

Folha - Essa oposição de “O Momento” trouxe algum problema à redação?

 

Sérgio - Se eu viver 200 anos nunca esquecerei do dia em que entrei no jornal, que funcionava em um dos boxes externos do Mercado Municipal, às nove da matina e encontrei o tipógrafo Ratinho (Glaudiston Milholho) pálido, a murmurar: “Os homi, os homi. Tão perguntando por você e pelo Bininha”. Bininha é o jornalista Antonio Carlos Campos, hoje na assessoria de imprensa da OAB, aqui em Brasília. Levei um bom tempo para entender que os homens da repressão tinham aparecido e nos aguardavam para engaiolar.  Sai de fininho e, enquanto atravessava a rua em direção ao campo do Estrela, tentando aparentar a maior naturalidade possível, tinha a impressão que uma mão pesada cairia a qualquer momento sobre os meus ombros. Da esquina da Rua Ana Machado vi o camburão parado em um bar ao lado da redação e alguns caras, de terno, tomando café. Corri até casa do Bininha, no Recanto, para avisá-lo mas infelizmente ele já tinha saído. Retornei correndo pela Capitão Deslandes e todos os conhecidos me diziam: “Ele acabou de passar”. Para nosso azar ele não parou para conversar com ninguém, o que me permitiria alcançá-lo. Corri mais ainda e da esquina da Rua Dona Joana com o pátio do mercado vi a cabeça dele já dentro do camburão. Fui à Casa do Estudante e mais uma vez cheguei tarde. Os homi já estavam prendendo a diretoria. Avisei em casa e me mandei pro Rio de Janeiro, por uma semana, esperando o perigo passar. Bininha, muito amigo, livrou a minha cara. Os homi apuravam o caso de pichações no centro da cidade e para isso prendiam estudantes e “subversivos”.

 

Folha - Como foi o caso da entrevista perdida da sua vida, com o Golbery do Couto e Silva, por causa de um fotógrafo que feriu a concordância na frente do general, no dia em que o Silvio Frota caiu e o país quase mergulhou em uma guerra civil?

 

Sérgio - Foi no dia em que o Geisel demitiu o ministro do Exército, o Silvio Frota, que ameaçava um golpe para impedir a reabertura democrática defendida pelo governo militar. Repórter de “O Globo”, em Brasília, estava de sobreaviso para uma possível eventualidade. Quando a demissão do Frota foi oficializada, pelo menos 30 repórteres foram convocados. A mim coube tocaiar o general Golbery em seu sitio em Goiás, próximo ao DF. Estava acompanhado pelo fotógrafo Julinho “Educação”, cujo apodo já diz tudo. A casa do general estava às escuras. Mesmo assim a ordem era para ficar lá até que alguém o localizasse e o carro da redação fosse nos resgatar. Era uma época em que telefone celular era ficção científica. Deitei-me sobre o muro do general, próximo à porteira, e o Educação também ficou por ali. Três horas depois a casa continuava às escuras e tínhamos uma certeza: o general fora localizado e nós esquecidos naquele fim de mundo. Uma hora depois uma sombra caminhou em nossa direção. Era um segurança, que queria nos expulsar. Aleguei que estava a pé e que não sairia a caminhar pelo cerrado, em plena madrugada, correndo o risco de nos perdermos e, pior que isso, não ser encontrado pelo carro do jornal. Aproveitei o ensejo para escrever um bilhete ao Golbery, pedindo uma “palavrinha dele para acalmar o país à beira de uma convulsão” e pedi ao segurança que o levasse até o general. Para minha surpresa, ele caiu na esparrela e pegou o bilhete, o que me deu a certeza de que o general estava no sítio. O segurança voltou e me disse para esperar que o general viria falar comigo. Fiquei feliz da vida – seria a entrevista exclusiva mais importante do país no dia seguinte, já que o jornal estava com a primeira página aberta até que o Golbery fosse localizado. Meia hora depois, as luzes se acenderam e alguns militares sairiam para a varanda. Vi quando o general Golbery caminhou em direção à porteira e preparei o gravador. Já tinha todas as perguntas previamente formuladas nas horas de espera. O coração batia a mil. Era a entrevista da minha vida. Quando o general estava a uns 30 metros, cutuquei com o pé o Julinho Educação, que já dormia profundamente. “Prepare a máquina”. Assustado, ele se levantou e quando vê a movimentação soltou um grito: “Sérgio, o pessoal se levantaram”. Assim mesmo, espancando a concordância! Na madrugada silenciosa o grito foi ouvido a léguas. Na hora vi o general Golbery hesitar. Praticamente adivinhei o seu pensamento: “Ah! Com esse nível de repórteres não vou falar é nada”. E deu meia volta, para meu desespero.  Era claro que o general queria falar. Tanto que recebeu a imprensa algumas horas depois, já no Rio de Janeiro, para falar sobre a crise política. O pior é que nem podia contar ao editor de Política o acontecido, sob pena de o fotógrafo ser sumariamente demitido. Até hoje, quando encontro o “Educação” em alguma solenidade oficial em Brasília e reclamo que ele estragou a mais importante entrevista da minha vida profissional, ele não entende o protesto e apenas responde: “Ué, eu só avisei que o pessoal se levantaram”.

 

Folha - Depois de 30 anos de revezamento de forças políticas tradicionais, um candidato jovem venceu as eleições da cidade. Sua experiência permite vislumbrar um cenário positivo para Cachoeiro?

 

Sérgio – Primeiro, nossos votos e desejo de um bom governo ao novo prefeito eleito. O cenário positivo para a cidade é possível e desejável. Cachoeiro precisa investir na qualidade e produtividade das suas rochas ornamentais, atrair empresas e capital internacional neste segmento e também se transformar em pólo industrial na área de pesquisa petrolífera, aproveitando a sua vocação natural de maior cidade do Sul do Estado. Apostar mais na escola técnica recém inaugurada e de seus cursos de nível superior. Fiquei impressionado com a estrutura da São Camilo na cidade e pelo fato de ser um grupo paulista pode ajudar a cidade a se transformar em um verdadeiro centro universitário também dedicado á formação de técnicos de ponta em toda a região. Se não formarmos esses especialistas na cidade as empresas vão buscá-los fora. Um sobrinho se formou em enfermagem na São Camilo e foi contratado pela Petrobras.  Mas a questão relativa às medidas que a cidade deve adotar para se desenvolver  deve ser analisada pelos cachoeirenses presentes. Não quero ser pretensioso e ditar regras.

 

Folha - No Oriente Médio, uma libanesa lhe pediu para entregar uma carta a um parente brasileiro dela e, minutos depois, uma bomba arrasa a residência da senhora.

 

Sérgio - Foi no início dos anos 80, já do século passado (como dói admitir isso). A convite do representante da Organização Para a Libertação da Palestina (OLP) no Brasil, médico Farid Sawann, visitei, com um grupo de jornalistas brasileiros,  campos de refugiados palestinos na Síria. Conhecemos as condições subumanas dos refugiados mas um dia, sem mais nem menos, a comitiva palestina simplesmente atravessou a fronteira da Síria com o Líbano e seguiu em direção a Beirute conflagrada e ocupada pelo exército sírio e diversas facções em conflito. Eram seis carros, com um repórter brasileiro em cada veículo. Da janela do meu carro, um palestino apontava uma submetralhadora russa Kalishinikov para os guardas da fronteira que também apontaram as suas armas em nossa direção. Felizmente ninguém apertou o gatilho. A explicação do nosso intérprete foi singela: se algum carro fosse metralhado ou atingido por uma granada morreria apenas um repórter. Simples assim. Chegamos em uma Beirute sem água, sem luz e nenhuma comunicação com o mundo exterior. Minha única preocupação era avisar ao jornal (“O Globo”) e ao Itamaraty que estávamos em Beirute ilegalmente. Oficialmente estávamos na Síria.  Aguardamos dois dias pela normalização do serviço telefônico e só então pudemos avisar ao jornal onde estávamos. Procurei a embaixada brasileira. Fui visitá-lo de táxi e, sem saber, atravessei uma área da cidade sob domínio de forças cristãs e inimigas dos palestinos. O embaixador brasileiro ficou enfurecido e disse que, se o táxi fosse parado, poderíamos ser fuzilados, já que no passaporte constava a viagem a convite da OLP. Voltamos ao hotel no carro do embaixador, onde tremulava a bandeira brasileira. No Sul do Líbano, conhecemos as ruínas da cidade histórica de Tiro, porto à beira do Mediterrâneo. Visitamos um bairro palestino onde uma senhora, que tinha parentes no Brasil, me pediu que levasse uma carta a alguns parentes dela, em São Paulo. Fiquei de retornar lá mais tarde e pegar a tal carta, mas já há alguns quilômetros do local acompanhamos um bombardeio pesado no bairro. Quando as bombas pararam de cair, os militares palestinos mandaram o motorista dar meia volta e retornar até a casa da velha senhora. O oficial palestino explicou que locais já bombardeados eram mais seguros, pois os canhonaços seriam dirigidos a outra parte da cidade. Realmente, logo a seguir ouvimos explosões em outro bairro. Reencontrei a mesma senhora. Em alguns minutos, envelhecera 20 anos. Ela olhava as ruínas de sua casa, onde uma torneira balançava inutilmente da única parede que ficara em pé. Sobrevivera porque fora contar às vizinhas sobre as visitas de brasileiros à casa dela.

 

Folha - A violência do Oriente Médio é somente motivada pro questões étnicas? E a violência brasileira, quais razões têm?

 

Sérgio - Judeus e árabes são primos. Brigas de família são as mais violentas que existem.  Diz a Bíblia que Abrahão teve dois filhos: Agar e Ismael. Abrahão forneceu pão e um odre de água a Agar e Ismael e mandou-os saírem de casa. Ambos erraram por algum tempo pelo deserto da Bersabéia, até que Ismael se fixou no deserto da Arábia, produzindo doze filhos – as doze tribos ismaelitas, ancestrais do povo árabe. Do outro lado da família, em Canaã, seu irmão Isaac teve dois filhos: Esaú e Jacó. Os doze herdeiros de Jacó formaram outras 12 tribos que deram origem ao povo hebreu. Os descendentes brigam até hoje. Bem, a violência brasileira pelo menos não tem raízes étnicas e nem bíblicas. Decorre mais da péssima e histórica distribuição de renda em uma terra em que, desde as capitanias hereditárias, foi formada por donatários, que tudo podiam, e os deserdados, sem direito a nada. O brasileiro até hoje não conquistou a cidadania plena. Como dizem os pernambucanos, o Estado é dividido entre os Cavalcanti e cavalgados. Uma trova famosa diz que “no Estado de Pernambuco tudo está em tal estado/ Que se é Cavalcanti ou se é cavalgado”. É assim na maioria dos estados. Ainda temos uma das piores distribuições de renda do mundo.

 

Folha - Você acompanha o contexto cultural de Cachoeiro?

 

Sérgio - Tento acompanhar. Acesso sites da cidade e de vez em quando os amigos como Fernando Gomes, Higner Mansur e Gilson Leão me passam as últimas notícias culturais cachoeirenses. Gilsinho tem um dos maiores acervos de entrevistas gravadas com velhos cachoeirenses. A cidade há muito merece um Museu da Imagem e do Som. O Dr. Wilson Resende também me deixava a par das novidades, via internet, mas há algum tempo me abandonou no exílio brasiliense. Aproveito o ensejo para reclamar. Tenho todos os CDs do Sérgio Sampaio, (que tocava violão lá na minha varanda) e um único do amigo João Moraes e da banda Patuléia (presente autografado e que agradeço penhoradamente). Sempre que posso também mando buscar livros de autores locais (o mais recente foi o “Anauê”, sobre o movimento integralista no Sul capixaba) e também CDs de cachoeirenses presentes (Aroldo Sampaio) e também dos  ausentes, como os pianistas cachoeirenses Miriam Ramos e Marcos Resende, cujos CDs  encontrei na Modern Sound, no Rio.  Lamentei o fim do site “Atenas Notícias” e sinto muitíssimo não ter ido a nenhuma edição da Bienal Rubem Braga, pecado que pretendo me redimir um dia.

 

Folha - O jornalista cachoeirense Marco Antônio de Carvalho ganhou o Prêmio Jabuti pela biografia de Rubem Braga. Ponto para nós?

 

Sérgio - Gol de placa para Cachoeiro e cesta de três pontos para o Marcão. A biografia do Rubem, em que ele trabalhou durante 15 anos, foi considerada a melhor obra do gênero deste ano e por isso mereceu o Jabuti. Infelizmente o Marcão morreu sem ver o livro editado. Digo, com orgulho, que tive uma pequena participação no livro quando ele começou a entrevistar velhos amigos cachoeirenses do Newton e do Rubem Braga. Entrevistei para ele, via e-mail, o Arthur Fröhlich, que morava em Frankfurt após quase meio século de vida em Cachoeiro. Logo após os três depoimentos que nos mandou, com histórias sobre a vida política do Brasil à época de Getúlio, em que conta como decidiu se mudar para Cachoeiro, para fugir do nazismo, ele faleceu. Judeus, os dois irmãos se prontificaram até em se alistar na FEB e lutar contra o nazismo na Itália, após alguns protestos desagradáveis que sofreram na guerra, por serem alemães. O depoimento do Arthur está no primeiro livro do Marcão, com entrevistas de cachoeirenses, e que também tive o prazer de escrever a apresentação, a pedido do Marcos.   

 

Folha - De que forma a região Sul do Espírito Santo é vista em Brasília? Com descaso, interesse?

 

Sérgio - Os brasileiros, em geral, desconhecem o Espírito Santo. Um dia, em Porto Alegre, um motorista de táxi, curioso com o meu sotaque, perguntou se eu era mineiro ou carioca.  A cara dele se transformou em interrogação quando falei que era do Espírito Santo. “Fica no Nordeste?’, ousou perguntar. Acho que a falta de um bom time de futebol no Estado, disputando o Brasileirão, é uma das causas deste desconhecimento. Esperemos que as recentes descobertas de gás e petróleo mudem essa visão. Observo que até mesmo em notícias na TV a nossa capital é sempre citada como “Vitória do Espírito Santo”. Sem isso, o brasileiro comum pode achar que é Vitória da Conquista ou Vitória de Santo Antão. O jornal “O Pasquim”, em seu auge, disse que a única serventia do Espírito Santo era separar a Bahia do Rio de Janeiro. A exceção, claro, é Cachoeiro. A cidade é conhecida em todo o país. Apenas os mineiros tendem achar que Rubem Braga é mineiro. Mas esse desconhecimento do Espírito Santo tem raízes históricas. Espremido entre o Rio de Janeiro, Minas e Bahia, três estados de grande importância política na história do país e absorvedores dos recursos destinados ao Sudeste, a situação geográfica capixaba me lembra a velha piada mexicana sobre as causas do subdesenvolvimento do país: “tan lejos de Dios e tan cerca de los Estados Unidos” ( tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos).

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